Carnaval: Quando a diversidade supera a adversidade

O carnaval é a maior festa popular do Brasil, comemorado em quase todas as cidades do país. É imã que atrai pessoas de vários países. A pluralidade brasileira permite aos foliões escolherem locais e ritmos para brincar nos quatro dias de festa. Chegou ao Brasil pelos colonizadores portugueses e, ao longo do tempo, foi se transformando e tornou-se momentos em que origem, raça, cor, gênero e condição socioeconômica pouco importam. Todos, sem distinção, querem dançar, pular, sorrir e sentir o suor escorrer pelo corpo ao som de sambas e de outros gêneros musicais que não deixam ninguém ficar parado. 

Fantasias dos mais diversos tipos e tamanhos traduzem a criatividade dos foliões e até satirizam questões polêmicas, políticos e figuras históricas que deixaram saudade ou conquistaram o rótulo de repugnáveis. Multidões formam blocos que ocupam quilômetros das avenidas das cidades. Vários expressam a tradição a cada carnaval. São inúmeros blocos carnavalescos, e o maior deles é o Galo da Madrugada de Recife, reconhecido pelo Guinness Book, que ocupou no sábado as avenidas da capital pernambucana com 30 trios elétricos.

A comemoração inspira alguns questionamentos em relação a um Brasil tão plural e pleno de diversidades, mas, lamentavelmente, com muitas adversidades inconcebíveis. Os desfiles das escolas de samba, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, levam para as principais avenidas de suas respectivas capitais uma maioria de pessoas negras que exaltam beleza, alegria, criatividade, inspirada na história do país ou nas realidades contemporâneas que precisam ser revistas e transformadas. 

Os quatro dias de folia são atropelados por 361 de muitas batalhas para romper com as desigualdades, o racismo, a homofobia, a misoginia, os feminicídios, as injustiças socioeconômicas e tantas outras que contaminam a democracia que foi tão difícil de ser conquistada.

Os negros estão, em grande parte, na periferia das cidades — é outro segmento da sociedade depreciado pelos não pretos e maioria nas escolas de samba. É inegável o sucesso dos samba-enredos  de compositores como Martinho da Vila, Arlindo Cruz, David Corrêa e tantos outros que usaram a música para contar a história do país, criticar as injustiças sociais e glorificar boas decisões dos poderes da República.

O Brasil plural ainda não está consolidado. Nas avenidas do samba, a cultura e os artefatos indígenas se somam à beleza dos enredos cantados, mas povos das florestas são depreciados por parcela expressiva dos Poderes da República. Seus territórios são afrontados por invasores que transmitem doenças e morte. O Estado Democrático de Direito não conseguiu garantir nem proteger os povos originários, costumeiramente afrontados por serem guardiões do patrimônio natural e indispensável à vida e aos negócios que dependem do clima para que sejam rentáveis. A arte desses povos, por muitos vistos selvagens, desafia a criatividade e o saber dos seus agressores. Eles mantêm uma relação amistosa com o meio ambiente e preservam os ensinamentos dos antepassados para ter uma vida saudável em seus territórios. 

A arte plumária dos povos indígenas está presente no carnaval, está nas fantasias dos foliões e das escolas de samba. Inspira a confecção de adereços que chamam a atenção e ilustram as histórias contadas nos enredos. O carnaval não é só um evento de massa, mas também exemplo que deveria ser cotidiano na sociedade. Mistura todos os brasileiros e estrangeiros no imenso salão Brasil para cantar, sorrir, dançar e brincar. Por que não pode ser sempre assim, quando a diversidade colorida supera a adversidade?

Artigo, Correio Braziliense, 16/2/2026


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